Protocolo Cloroquina para a Covid-19: o que dizem os estudos?

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O novo coronavírus trouxe um desafio a profissionais e especialistas do mundo todo. Mesmo após alguns meses do primeiro caso diagnosticado, ainda se busca entender exatamente como o vírus acomete o organismo e de que forma deve ser feito o manejo clínico, com segurança à vida de pacientes, conforme indica o Ministério da Saúde. 

Entre as possibilidades de tratamento em estudo está a cloroquina, uma medicação já comercializada há anos para algumas doenças autoimunes e a malária. 

A possibilidade da droga ter benefícios no tratamento contra a Covid-19 é sustentada por análises preliminares e ainda não conta com embasamento científico, logo que os estudos e resultados são bastante limitados.

A cloroquina e a hidroxicloroquina — um derivado menos tóxico da droga — têm sido administradas em alguns casos, mas isso ainda em caráter experimental. Ou seja, cabendo à análise médica a decisão de tentar o tratamento.

Com base em algumas dessas pesquisas que apontam possíveis benefícios contra o coronavírus, o Ministério da Saúde emitiu um Protocolo para a utilização da substância, em conjunto com o antibiótico azitromicina em casos graves, moderados e leves.

De acordo com a publicação do órgão, o objetivo é expandir o acesso ao tratamento a pacientes, bem como dar orientações à utilização — quando essa for a decisão acordada entre médico(a) e paciente. 

Porém, o próprio documento aponta que ainda não há evidência científica que comprove a segurança e a efetividade da droga em quadros de Covid-19.

O que é a Cloroquina?

A cloroquina e hidroxicloroquina são utilizadas há anos para o tratamento de malária e algumas doenças autoimunes, como artrite reumatoide e lúpus. Conforme a bula, o medicamento está indicado tanto para a profilaxia — ou seja, prevenção por meio da administração de doses subterapêuticas — quanto para o tratamento da malária, que é uma doença causada por Plasmodium vivax, P. ovale e P. malariae

A droga ainda é indicada para o tratamento de amebíase hepática (infecção por protozoários do tipo Entamoeba histolytica).

Em conjunto a outras medicações, também é utilizada para artrite reumatoide, lúpus eritematoso sistêmico e lúpus discoide e sarcoidose (que são condições autoimunes), além de doenças de fotossensibilidade, como a porfiria cutânea tardia e erupções polimórficas graves, decorrentes da exposição à luz.

Seu uso é eficaz e seguro nesses casos, logo que exaustivos estudos foram realizados para avaliar os riscos e ações da droga em pacientes que sofrem com alguma dessas condições. 

Mas, ainda assim, deve ser feito sempre com orientação e acompanhamento médico, logo que pode desencadear reações adversas, assim como qualquer outra medicação. Em geral, eles são moderados e não representam riscos à vida e à saúde de pacientes.

Como aponta a doutora em farmacologia Francielle Mathias, “Podem ocorrer efeitos no sistema cardiovascular, no sistema nervoso central e no sangue. Depende da dose e do quadro clínico do paciente, mas como são reações possíveis e envolvem sistemas importantes, não são consideradas leves.”

A droga, então, mostra-se segura para doenças como artrite reumatoide e malária pois foram exaustivamente estudadas nesses casos.

Paciente também têm acompanhamento constante e, caso ocorram manifestações adversas, a equipe médica responsável pode acompanhar e trocar a medicação, caso seja necessário — o que reduz riscos à saúde das pessoas em tratamento, como aponta o biólogo e PhD em microbiologia Luiz Almeida.

Entre as possíveis reações adversas mais comuns, com dosagens terapêuticas orientadas pela bula, estão cefaleia, irritação do trato gastrointestinal, distúrbios visuais e urticária.

É o uso prolongado de dosagens altas (acima de 250mg) que está relacionado a maior incidência de efeitos colaterais mais intensos. Nesses casos, podem ocorrer miopatia tóxica, cardiopatia e neuropatia periférica, visão borrada, diplopia, confusão, convulsões, erupções e outras reações.

Como o medicamento funciona?

A malária é transmitida por meio da picada da fêmea do mosquito Anopheles que estão infectadas com o protozoário Plasmodium. Após a picada do mosquito, os parasitas precisam invadir células do organismo, replicando-se e, com isso, afetando mais células.

Nos casos da malária, de acordo com Luiz Almeida, biólogo e PhD em microbiologia, a cloroquina “impede o parasita que causa a doença infecte as células”. 

Já a artrite reumatoide e lúpus são doenças autoimunes, em que o organismo acaba atacando as próprias células saudáveis do corpo, levando a alterações. Para esses casos, a cloroquina atua com efeito de imunomodulação. Ou seja, “ela reduz a resposta exagerada do próprio sistema imune de pacientes”, de acordo com Luiz Almeida.

O que se sabe sobre o curso clínico da infecção por coronavírus? 

De acordo com o protocolo de Manejo Clínico do Coronavírus (Covid-019), do Ministério da Saúde, a transmissão do vírus SARS-CoV-2 de humano para humano ocorre principalmente pelo contato com gotículas respiratórias de pessoas contaminadas. 

Ou seja, ao falar, tossir e espirrar, por exemplo, são emitidas partículas de saliva que contêm o vírus. Elas podem infectar diretamente outra pessoa ou ficarem depositadas em superfícies e outros materiais, como maçanetas, produtos em supermercado, dinheiro etc. 

Dessa forma, ao inalar essas gotículas, ou tocar em algo contaminado e levar a mão à boca, o vírus invade o organismo saudável. Em média, o tempo de incubação é de 5 a 6 dias, podendo variar entre 0 e 14 dias, conforme indica o protocolo do Ministério da Saúde.

O quadro se assemelha a uma síndrome gripal, podendo manifestar-se em quadros leves ou assintomático, bem como moderados e intensos. Os sintomas mais frequentes incluem febre (acima de 37,8ºC), tosse, dificuldade de respirar e perda de olfato e paladar.

Os quadros com desfecho clínico mais grave são aqueles em que a pessoa acometida faz parte de algum grupo de risco, como pessoas idosas e portadoras de doenças crônicas (entre elas, diabetes, doenças cardíacas, hipertensão).

Qual é a diferença entre hidroxicloroquina e cloroquina?

A cloroquina e a hidroxicloroquina são substâncias medicamentosas bastante conhecidas da medicina. Esses medicamentos têm ação antimalárica e anti-inflamatória, indicadas para doenças reumatológicas e autoimunes, como o lúpus eritematoso sistêmico.

Ambos os medicamentos têm efeito imunomodulador reconhecidamente seguros e eficazes para diversas condições autoimunes, desde que havendo a devida prescrição. Dessa forma, o tratamento auxilia na melhora da resposta imune contra determinados agentes, ou seja, auxiliam no combate às doenças.

Apesar das semelhanças, os remédios têm formulações diferentes a partir de uma mesma substância: a cloroquina. De forma geral, os efeitos esperados que se observam são parecidos, mas isso muda em relação aos efeitos adversos — a hidroxicloroquina apresenta, de forma geral, menos efeitos colaterais, sendo relativamente mais segura.

Quais são as fases de teste de um medicamento e por que recorrer às medicações já existentes?

Quando medicamentos estão sendo estudados para o tratamento de alguma doença, o processo normal é composto por diversas etapas que podem demorar anos até serem conclusivas. 

O objetivo desse longo processo é assegurar a eficácia e a segurança da droga. Em geral, o processo inicia com testes in vitro — ou seja, em laboratório, com células isoladas submetidas a interações com o medicamento. 

A doutora em farmacologia Francielle Mathias aponta que “como estamos em uma pandemia, uma situação totalmente atípica, drogas já usadas para outras doenças foram testadas in vitro para verificar eficácia contra o Covid-19 e os resultados foram levados em conta, para tomar decisões em relação à terapêutica”.

Dessa forma, se os resultados forem positivos, a avaliação e os estudos prosseguem.

Em seguida, começam os testes in vivo — ou seja, feitos em animais. Normalmente, são realizados estudos da droga em roedores, como os camundongos, e depois em não roedores, como cães e macacos. 

Ao fim desses testes em animais, obtêm-se mais dados sobre o comportamento da droga no organismo. Se os dados demonstrarem efetividade e segurança, então, a droga segue para os testes em humanos.

Isso também começa de forma controlada e em pequenos grupos previamente selecionados. Os estudos prosseguem com a administração para mais pacientes, até se obter dados consistentes sobre a segurança do medicamento.  

Mas em situações como a pandemia do novo coronavírus, o objetivo e acelerar esse processo, mas sem colocar em risco a saúde das pessoas. 

Por isso, uma alternativa é recorrer aos medicamentos que já estão disponíveis no mercado e que demonstram poder serem indicados para outras doenças — no caso atual, a Covid-19. 

Como esses remédios já foram testados, o conhecimento sobre suas ações, efeitos colaterais e segurança é melhor conhecido, apesar de ainda necessitar de testes sobre como funcionam para o tratamento de outras patologias.

Protocolo para uso da Cloroquina no tratamento de Covid-19

Com uma taxa de mortalidade média de 2% a 4%, a Covid-19 tem sido um desafio para profissionais à frente das pesquisas por tratamentos e vacinas para a infecção. Uma das formas de acelerar esse processo de forma segura é estudar e avaliar a ação de medicamentos já existentes, mas indicados para outras condições, que têm liberação e potencial para auxiliar na doença pesquisada. 

Esse é o caso da Covid-19: diferentes medicamentos antivirais e imunomoduladores estão sendo estudados, avaliando a capacidade de controlar a replicação viral e regular a resposta imune de pacientes. 

De acordo com Luiz Almeida, PhD em Microbiologia, esse recurso é bastante interessante considerando sobretudo o contexto de uma pandemia, mas ainda assim “é preciso manter a seriedade dos estudos, levando em consideração todos os fatores e dados”.

Entre as substâncias com indícios para tratar a Covid-19 está a Cloroquina, que em estudos preliminares foi considerada um possível medicamento com ação antiviral.

A droga apresentou resultados relevantes, porém em estudos limitados, sobretudo em relação à metodologia e ao tamanho da amostra dos grupos analisados. Ainda assim, no mês de maio, o Ministério da Saúde publicou um Protocolo de recomendação para a utilização do medicamento, orientando sobre a dosagem e a forma de usar a cloroquina e a hidroxicloroquina para casos leves, moderados e graves de Covid-19.

De acordo com o documento, o objetivo é orientar, de forma uniformizada, profissionais de saúde quanto ao tratamento. Dessa forma, conforme o protocolo, visa-se ampliar o acesso de pacientes à Cloroquina, com base em indícios de potenciais benefícios contra o coronavírus, ainda que sem base científica.

Dessa forma, o documento também destaca que não há comprovações científicas da eficácia da substância nos casos de Covid-19, e que cabe a cada profissional analisar a pertinência do uso. 

Quando há comum acordo entre paciente e profissional de medicina, ambos devem assinar o termo de responsabilidade, declarando que todos os riscos foram devidamente explicitados e que há ciência sobre a ausência da comprovação científica sobre o tratamento.

Nesse sentido, vale lembrar que o uso da medicação, antes desse Protocolo, já era possível para casos compassivos, ou seja, quadros graves de Covid-19, cabendo a cada profissional de medicina avaliar os riscos e benefícios da prescrição. 

Ainda em março, o Ministério da Saúde publicou uma nota esclarecendo que os medicamentos cloroquina e hidroxicloroquina seriam disponibilizados para pacientes com formas graves da Covid-19, conforme prescrição médica.

Dessa forma, o protocolo instrui que pacientes com casos leves, moderados ou graves podem receber Cloroquina, ou sulfato de Hidroxicloroquina, associada à Azitromicina nos primeiros dias da infecção — entre o 1º e o 14º.

A publicação divide opiniões e foi recebida com preocupação por algumas entidades de Saúde, que inclusive manifestaram notas posicionando-se contrárias à utilização, incentivo ou liberação sem a comprovação científica da cloroquina. 

Vale considerar, como destaca Luiz Almeida, que o protocolo se refere a uma recomendação e não à liberação de tratamento, já que não há, efetivamente, comprovação científica da eficácia das drogas para Covid-19.

Sendo assim, sem a comprovação científica, o protocolo não pode ser considerado um documento oficial — logo que isso fere a legislação — e nem receber registro da ANVISA, que é o órgão regulador nacional.

Posicionamento de entidades de saúde

Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), em nota, reforça que não há comprovação científica dos benefícios, em qualquer estado da Covid-19, para o uso das drogas cloroquina e hidroxicloroquina, bem como elas têm demonstrado, a partir de testes, elevar os riscos de letalidade. 

A nota destaca que, diante de quadros de sofrimento humano, médicos e médicas devem, como exercício humanizado da medicina, prescrever substâncias, mesmo que com efeito placebo, visando o melhor bem-estar — isso inclui vitaminas, gás ozônio e homeopatia, logo que não há riscos à saúde e integridade das pessoas acometidas. 

Porém, a Abrasco declara que:

“Quando a substância que se pretende utilizar com essa finalidade está fortemente associada a eventos adversos graves e conhecidos, especialmente na população-alvo da COVID-19, mais idosa, em sua maioria com cardiopatias, e portanto mais sujeita a arritmias fatais, cabe ao médico, amparado pela ciência, advertir e lutar para que não tenhamos mais mortes iatrogênicas desnecessárias”. 

Para a Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI), diante dos estudos pouco contundentes a respeito dos efeitos e mecanismos de ação no tratamento da Covid-19:

“[…] esses medicamentos [cloroquina e hidroxicloroquina]  não devem ser prescritos de modo generalizado e indiscriminado nos casos leves e ambulatoriais da doença. Por outro lado, podem ser prescritos com extrema cautela e em condições clínicas específicas da COVID-19.”

Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) também emitiu nota oficial, declarando que: 

“Não recomenda o uso da Cloroquina e Hidroxicloroquina associada, ou não, à Azitromicina, enquanto não houver evidências científicas definitivas acerca do seu emprego.”

No entanto, caso essa seja uma opção acordada entre paciente e médico(a), a recomendação da SBC é que sejam tomadas medidas de precaução por meio da realização de eletrocardiograma, considerando que as drogas podem desencadear reações adversas cardíacas graves.

Da mesma forma, o Conselho Federal de Medicina (CFM), em nota, posicionou-se como favorável à autonomia profissional diante do cenário atual, cabendo ao julgamento profissional a análise dos benefícios e riscos, em acordo com a pessoa acometida, mas sem incentivar o uso. 

Assim, destaca que:

“Não há evidências sólidas de que essas drogas tenham efeito confirmado na prevenção e tratamento dessa doença. Porém, diante da excepcionalidade da situação e durante o período declarado da pandemia de COVID-19, o CFM entende ser possível a prescrição desses medicamentos em três situações específicas.”

Ainda, o Conselho Nacional de Saúde (CNS), em resposta à publicação do Protocolo do Ministério da Saúde, publicou a recomendação de suspensão imediata da recomendação de cloroquina para casos leves de Covid-19:

“[…] em razão do descumprimento da legislação do SUS e dos riscos à saúde da população brasileira, representados pela utilização da cloroquina e da hidroxicloroquina no contexto da pandemia pelo novo coronavírus”.

De acordo com o PhD microbiologista Luiz Almeida, a segurança da cloroquina é conhecida para os quadros já aprovados, mas para a Covid-19 ainda é muito incerta. “E estudos têm demonstrado que ela não está funcionando ou está piorando os quadros de algumas pessoas. Não é porque a droga é usada com sucesso para outras doenças que pode ser indicada para tratar a Covid-19”.

Em que quadros do coronavírus o Ministério da Saúde indica usar Cloroquina?

Vale destacar que, conforme o Ministério da Saúde, o Protocolo que trata da utilização da cloroquina e hidroxicloroquina para o tratamento de Covid-19 não é uma deliberação para a administração do medicamento, cabendo à autonomia médica a avaliação dos riscos e benefícios em adotar as medicações. 

Porém, a publicação dá diretrizes quanto às dosagens de administração, em relação ao quadro (leve, moderado e intenso), bem como o estágio de infecção. 

Para os sintomas e sinais leves de Covid-19, a orientação é administrar cloroquina + azitromicina ou Hidroxicloroquina + azitromicina nas fases 1 (entre o 1º e 5º dia) e fase 2 (entre o 6º e 14º dia). 

Na fase 3 (após o 14º dia), a orientação é prescrever medicamentos sintomáticos (para amenizar os sintomas). Nos quadros e sintomas moderados, a orientação para a fase 1 e 2 é administrar cloroquina + azitromicina ou hidroxicloroquina + azitromicina. Não há orientação para a fase 3. 

Em sintomas e sinais graves, a orientação para todas as fases é administrar hidroxicloroquina + azitromicina.

Vale destacar que o protocolo indica a necessidade de consentimento e comum acordo entre paciente e médico(a) para o tratamento com cloroquina. Para isso, pacientes devem assinar o termo de responsabilidade, declarando ciência dos riscos da medicação.

Estudos e evidências científicas: o que se sabe sobre a cloroquina para o novo coronavírus? 

Uma série de possibilidades foram levantadas com base em estudos in vitro e in vivo. Apesar de alguns testes demonstram possíveis benefícios, a cloroquina ainda carece de comprovação científica, logo que os dados são pouco contundentes.

Entre os possíveis benefícios do uso da cloroquina — os mais prováveis até agora — é a redução do tempo de internamento de pacientes em UTI, ainda que haja especialistas que apontam que esse benefício não compensa o risco da medicação.

Poucos dias após a publicação do Protocolo do Ministério da Saúde, dando diretrizes quanto à utilização da Cloroquina para casos leves — além dos já possíveis usos em quadros graves —, a Revista científica The Lancet publicou o maior estudo referente ao emprego da droga para a Covid-19.

A pesquisa foi feita com 96.000 pacientes em 671 hospitais do mundo todo. O objetivo foi comparar a eficácia da Cloroquina e da Hidroxicloroquina administradas isoladamente ou em conjunto com antibiótico macrólido (grupo que inclui a azitromicina) em relação a pacientes que não receberam o tratamento medicamentoso.

O estudo concluiu que o uso das substâncias, além de não proporcionar benefícios contundentes a pacientes, também pode elevar o risco de problemas cardíacos graves e óbito. Isso, pois os dados demonstraram que o risco de morte entre pessoas infectadas com o coronavírus foi de 9,3%. 

Em comparação, entre pacientes que receberam tratamento, a taxa foi de 16% para quem usou apenas cloroquina e de 23% para quem recebeu a combinação de cloroquina e antibiótico. 

Além disso, os dados indicam que o tratamento com as drogas elevou também as chances de arritmias cardíacas, que pode levar à morte. 

Os resultados corroboram com outros estudos já realizados. Como aponta o PhD em microbiologia Luiz Almeida, os primeiros “estudos que foram concluídos e mostraram benefícios do uso da cloroquina têm falhas graves na metodologia e no desenho do experimento”.

Diante da divulgação da revista, a Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou a suspensão dos estudos sobre a medicação. A entidade lidera a pesquisa Solidarity, feita em diversos países, referente à segurança e eficácia da droga.

No Brasil, considerando o Protocolo publicado pelo Ministério da Saúde e as orientações da OMS, o uso permanece sendo condicionado à assinatura do termo de responsabilidade, em que se declara consentimento do(a) paciente para o tratamento — podendo o médico ou médica sofrer futura responsabilização profissional perante agravantes no quadro.

Cloroquina tem efeito antiviral?

Alguns resultados preliminares demonstraram que a cloroquina pode ter potencial para tratar a Covid-19, porque atua impedindo a entrada de vírus na célula, alterando o pH do endossomo — que é uma estrutura semelhante à uma bolha, responsável pelo transporte e digestão de partículas captadas pelas células.

Assim, considerando a infecção celular por meio de endossomos, a cloroquina impediria que essa bolha, contendo o material genético do coronavírus se rompa dentro da célula e permita a replicação viral. Ou seja, como o endossomo atua como um veículo da partícula viral, essa alteração no pH impediria a infecção da célula.

Porém, outros estudos apontam que, apesar de existir esse meio de invasão celular, ele não é o único — e nem é o preferido pelo novo coronavírus, 

De acordo com Luiz Almeida, “o problema é que os primeiros estudos foram feitos com células que não são semelhantes às do sistema respiratório, pois elas [as utilizadas nos estudos in vitro] só têm uma porta de entrada em que o coronavírus pode atuar — que é pela via dos endossomos”

Ensaios posteriores com células semelhantes ao do sistema respiratório — que contam com outras formas de entrada na célula — indicaram que a cloroquina não se mostrou tão eficaz. 

Segundo Luiz Almeida, o resultado dos ensaios apontou que houve uma diminuição da potencialidade de infecção das células, mas que a taxa não foi considerável. Isso, pois “o vírus consegue fundir-se com a membrana da célula-alvo, injetando o material genético, mesmo sem o processo do endossomo”. 

Dessa forma, ressalta o microbiologista, a cloroquina “não tem tem a capacidade de impedir a replicação do vírus, ela apenas impede que o material genético seja liberado pelo endossomo”. 

Além disso, o PhD em microbiologia aponta que “a cloroquina já foi testada para diversas outras doenças virais como a AIDS, dengue, influenza e SARS, sem apresentar resultados — e testes em animais (in vivo) do medicamento para casos de ebola e chikungunya indicaram o agravamento do quadro, em que houve o aumento da carga viral.

Os efeitos colaterais são bem conhecidos?

Assim como qualquer outra medicação, a cloroquina pode desencadear efeitos colaterais. Porém, seu uso é considerado seguro para os casos em que foi estudada — isso não desobriga o acompanhamento médico constante.

É exatamente por isso que a cloroquina e a hidroxicloroquina são seguras para os casos já aprovados — ou seja, malária, lúpus e artrite reumatoide. Pois há bastante estudo, cumprindo rígidos protocolos científicos, que testam a droga em pessoas saudáveis e em pacientes com algum desses quadros.

Dessa forma, ao prescrever essa medicação, médicos e médicas já sabem quais os possíveis efeitos colaterais. Com isso, qualquer alteração que ocorra, o(a) paciente tem acompanhamento médico e, caso necessário, o medicamento é trocado — o que garante segurança para o uso.

De acordo com o PhD em microbiologia Luiz Almeida, “os efeitos colaterais da cloroquina e a hidroxicloroquina já são muito bem descritos, mas mesmo em paciente com indicação de uso elas podem causar náuseas, dor de cabeça e arritmia cardíaca. Sendo especialmente complicado em pessoas com Covid-19, pois há estudos indicando que a doença ataca outros órgãos, como o coração”.

Ou seja, a própria infecção por coronavírus pode afetar o coração. Junto a isso, entre os grupos de risco para a Covid-19, está o de pessoas com problemas cardíacos, como a insuficiência, o que agrava a situação. 

Com a administração da droga, pode haver mais um fator interferindo no ritmo cardíaco e diminuindo o intervalo entre os batimentos. Dessa forma, o risco é alto ao optar pela droga sem saber, efetivamente, a sua segurança e ação.

Tem ação imunomodulatória?

O mecanismo de imunomodulação existe e é isso que o torna muito útil para tratar doenças autoimunes. Isso, pois ele age reduzindo a ação do sistema imune, responsável pelo ataque indevido às células saudáveis do corpo.

Para Luiz Almeida, PhD em microbiologia, para a Covid-19 esse efeito parece não ter mostrado resultados promissores. Considerando que o protocolo de tratamento orienta o uso de cloroquina por 5 dias, esse prazo pode fazer com que o efeito de imunomodulação não faça diferença para o(a) paciente.

Além disso, considerando a administração no tratamento precoce, “o uso a droga pode ainda ter efeitos indesejados, pois pode levar à depressão do sistema imune, o que pode favorecer a replicação do vírus”, de acordo com Luiz Almeida.

Perspectivas de tratamentos para a Covid-19

Diferentes medicamentos estão em fase de testes e alguns demonstram ser promissores no tratamento da Covid-19. De forma geral, as medidas de assistência tomadas para pacientes sintomáticos é a prescrição de remédios para amenizar os sintomas, como antitérmicos para a febre ou antibióticos quando pacientes apresentam infecções por bactérias, como a pneumonia.

Em casos graves, a hospitalização e, quando necessário, a intubação são feitas, como forma de controlar o acometimento pulmonar.

Sobre as possibilidades em andamento e que demonstram ser, de fato, promissoras, Luiz Almeida, PhD em microbiologia, aponta que algumas substâncias antivirais estão em testes, sendo que algumas delas operam por mecanismos que impedem a entrada do vírus na célula e, portanto, sua consequente replicação viral.

Além disso, um método chamado de Plasma convalescente tem sido empregado, em modalidade também experimental, como forma de auxiliar no controle viral e recuperação de pacientes.

O método demonstra bons resultados e há dados suficientes para considerá-lo seguro — inclusive, já foi testados há alguns anos para outros casos de coronavírus (lembrando que o coronavírus se refere a um grupo de diferentes vírus, e alguns deles já são conhecidos pela comunidade médica).

O processo consistem em coletar uma amostra de sangue de pacientes já curados da Covid-19 e separar o plasma desse material, que é um tecido do sangue. Como se estima que quem já teve a infecção produz anticorpos para a doença, estes podem estar presentes no plasma.

Dessa forma, o material é injetado em pessoas em fase de tratamento, podendo auxiliar no controle viral e acelerar a melhoria do quadro.

Pesquisadores e pesquisadoras do mundo todo buscam medicamentos para controlar a doença e desenvolver vacinas para a doença que afetou todo o mundo.

Nesse meio tempo, estudos apresentam dados promissores e descartam opções anteriormente cogitadas em busca de substâncias seguras e eficazes contra a Covid-19.

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Fontes Consultadas

  • Luiz Almeida — Coordenador dos Projetos Educacionais do Instituto Questão de Ciência, biólogo formado pela PUC-Campinas, PhD em Microbiologia, na área de Genética de Bactérias pelo Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo, ICB-USP. Diretor no Brasil do festival internacional de divulgação científica “Pint of Science – Um Brinde à Ciência”.
  • Francielle Mathias — Farmacêutica generalista e Mestre em Ciências Farmacêuticas pela Universidade Estadual do Centro-Oeste. Doutora em Farmacologia pela Universidade Federal do Paraná. Farmacêutica responsável do Consulta Remédios.

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